creta bloom
viciada em quase · parte iii · o vício cápsula 10

Ele me chama, me busca, mas nunca fica

Existe um tipo de relação que não chega a ser exatamente uma relação, mas também não se dissolve de vez. Ela fica ali, pairando, como uma presença intermitente que aparece quando convém e desaparece quando já não é necessária. E o mais cruel desse tipo de dinâmica não é apenas a ausência do outro, mas o modo como essa ausência vem sempre depois de um encontro bom o suficiente para reacender esperança. É justamente isso que confunde, que desgasta e que prende.

Quando alguém nos procura, cria proximidade, vive momentos intensos e depois some por dias ou semanas, a mente tenta fazer o que sempre tenta fazer diante do que não compreende: encontrar explicações. O pensamento começa a rodar em círculos, como se, ao entender o motivo do comportamento do outro, a dor diminuísse. Mas há um ponto delicado aqui, e ele é decisivo: muitas vezes, a pergunta real não é “por que ele faz isso?”, mas sim “por que eu continuo aceitando isso, mesmo vendo o padrão se repetir?”.

Porque, quando o padrão já é claro, insistir na busca por justificativas não é apenas uma tentativa de compreender. É também uma forma de manter a esperança viva. É como se você precisasse encontrar uma explicação que salvasse a fantasia, algo que tornasse o comportamento do outro mais aceitável, menos cruel, menos definitivo. A verdade, porém, costuma ser mais simples do que gostaríamos de admitir: quando alguém aparece apenas em certos momentos, oferece migalha de presença e some assim que se sente satisfeito, essa pessoa não está escolhendo. Está usando.

É duro dizer isso, porque a palavra “usar” parece agressiva demais, quase desumana. Mas é exatamente isso que acontece quando alguém se aproxima apenas quando precisa de algo: atenção, sexo, carinho, validação, companhia, alívio da solidão, entretenimento. Não importa exatamente o que seja. O ponto é que o vínculo não é construído a partir de desejo constante, mas de necessidade pontual. A diferença entre desejo e necessidade é brutal. O desejo tem continuidade, tem impulso, tem consistência. A necessidade, não: surge, é saciada e desaparece. E quando desaparece, você desaparece junto.

Quando a presença do outro é intermitente, não é porque ele é confuso. É porque a relação ocupa em sua vida um lugar secundário. Você não é prioridade. Você é recurso. Você entra como plano alternativo, como opção conveniente. E quando isso acontece,

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Algumas palavras só se revelam a quem decide ficar.

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